
EU, ROBÔ - O Robô Skelly e seu criador MacMurtrie
Em Nova York, artistas do grupo ARW fazem exposição com robôs que traz reflexão entre a relação homem/máquina.
Jotabê Medeiros
O visitante que entra na antiga igreja situada no número 111 da Pioneer Street, no Brooklyn, em Nova York, se depara com um cenário que lembra um filme de ficção científica. Pelas salas do ex-templo cristão, encontrará robôs e esculturas mecânicas que violam a primeira lei da robótica de Isaac Asimov (Um robô não pode atingir um ser humano nem permanecer passivo, deixando esse ser humano exposto ao perigo).
Contrariando Asimov, os robôs e engenhocas criados pelo grupo de artistas nova-iorquino apelidado de The Robotic Church (A Igreja Robótica) têm uma meta bem definida: arrancar o espectador de sua passividade e indiferença em relação ao mundo moderno. Mas sem pretender dominá-lo do jeito que as máquinas de Matrix e O Exterminador do Futuro ameaçaram fazer na tela do cinema.
O grupo de artistas, engenheiros e técnicos ocupados em fazer essas obras em movimento, batizadas de Amorphic Robots Works (ARW, nome oficial), foi criado em 1992. As esculturas têm entre 30 centímetros e 9 metros de altura, e às vezes são feitas de sucata.
O sacerdote-mor e diretor artístico dessa “igrejinha” é o artista plástico Chico MacMurtrie, filho de irlandês com mexicana, que diz que não fica nem um pouco chateado de seu grupo ser chamado de Igreja Robótica. “Estamos em uma igreja e fazemos robôs, e muitas coisas na Igreja também são automáticas e há estímulos que as tornam robóticas”, disse ao Link.
Artistas rigorosos, sua ação não tem nada a ver com reverências a um suposto deus ex-machina, não são um grupo de fanáticos crentes na suprema superioridade da máquina. Eles são o oposto do futurista Fillippo Tommaso Marinetti, que, no começo do século 20, pregava a hegemonia maquinista.
MacMurtrie só não tem muita paciência para as insistentes perguntas relacionadas à ficção científica. Por exemplo: perguntem-lhe se viu filmes recentes, como Eu, Robô. “Odeio a referência. Faço escultura e arte usando robótica. Você tem noção que Eu, Robô não é um robô, não tem? Aquilo é animação e computação gráfica. É ficção científica, vamos falar sobre arte?”, dispara MacMurtrie.
O.k., vamos falar sobre arte então. As paisagens amórficas e as criaturas e cenários artificiais criadas pelo ARW causam um efeito estranho, como se fossem uma bizarra conexão entre primitivo e futurista, entre as máquinas voadoras delirantes de Leonardo da Vinci e o supercomputador Deep Blue, aquele que ganhou uma partida de xadrez de Gary Kasparov. Mais de cem computadores são usados para movimentar as esculturas mecânicas.
“Meu trabalho artístico evoluiu com meu fascínio pelo movimento e a condição humana. Quando você escolhe um meio onde o movimento é central, você escolhe algo mais que qualquer outro artista. Meu trabalho tornou-se um estudo da condição humana com o uso da robótica. Minhas idéias fixam-se no começo da linguagem, quando se comunicava por meio do movimento e do som.”
Para MacMurtrie, é importante estabelecer essa premissa: ele busca o humano por meio da máquina. “Expresso minhas idéias artísticas com máquinas, mas não estou tentando abarcar papéis exclusivos do ser humano. Quero que as pessoas olhem para trás e enxerguem o que a tecnologia está tomando delas.”
Segundo MacMurtrie, que começou trabalhando com orçamentos exíguos e máquinas muito limitadas e hoje vive mergulhado em alta tecnologia, os avanços alcançados pela inteligência artificial devem ser encarados sem tanta paranóia.
“Todo mundo hoje em dia tira seu dinheiro de uma máquina do banco, e o governo tem muito mais controle de cada ação dos cidadãos do que jamais teve. O fato de um humano programar uma máquina para repetir uma ação pode significar que essa máquina será 100% acurada. Mas o jeito que o ser humano pensa e cria não é reproduzível. Nós somos únicos. Pesquisadores vão continuar a usar o cérebro humano como modelo e certamente vão chegar longe, mas nunca poderemos adquirir as singularidades humanas.”
“Para que ser tão obcecado por essa idéia de robôs e máquinas controlando cada movimento humano, quando uma pessoa pode ser morta na rua sem que outro ser humano queira ajudá-la, ou quando nós assassinamos interminavelmente iraquianos em seu próprio país enquanto nossas TVs dizem aos americanos que isso é O.k.?”, indaga.
Imerso na tecnologia como ferramenta expressiva, o artista revela-se profundo admirador de Michelangelo, Goya e Giotto, que ajudaram a pintura a se expandir como linguagem artística em séculos anteriores. “Para mim, não é uma obrigação usar a tecnologia. Mas essas ferramentas estão se tornando cada vez melhores. Também pode ser interessante usar tecnologia defasada, especialmente se você tem uma idéia nova na qual aplicá-la”, pondera.
Como um missionário cuja única religião é a arte, MacMurtrie é enfático ao defender o seu credo. “Eu faço máquinas que fazem o espectador sentir pesar, raiva, excitação, alegria, medo. Mas as máquinas não sentem nada.”
Extraído de: http://www.link.estadao.com.br/index.cfm?id_conteudo=4147